A comunidade de fé que ficou conhecida (em 1952) como Igreja de Deus da Profecia (IDP) tem, em sua essência, estado ligada à jornada espiritual de seu fundador, A. J. Tomlinson, um membro da comunidade quaker de Indiana. Em nenhum outro lugar isso fica mais evidente do que no fato de que a IDP foi, por décadas, a única denominação pentecostal nos Estados Unidos comprometida com o interracialismo em todos os níveis da organização. Isso contrasta fortemente com o axioma de que a maioria dos grupos pentecostais fracassou no interracialismo dentro de uma década após o lendário Avivamento da Rua Azusa de 1906.
Em alguns estados, a IDP pode ter sido a primeira igreja a desafiar as leis Jim Crow em seus cultos. Afro-caribenhos, afro-americanos e latino-americanos assumem a liderança de estados/regiões cuja composição inclui, em sua maioria, europeus-americanos. Essa abordagem sem precedentes tem diferenciado a IDP não apenas entre os pentecostais clássicos, mas também entre muitas denominações nos Estados Unidos.
Os Anos em Westfield
Ambrose Jessup Tomlinson nasceu em 22 de setembro de 1865, perto de Westfield, Indiana, filho de Milton e Delilah Tomlinson. Seus avós, Robert e Lydia Tomlinson, aderiram ao movimento dos Amigos da Abolição e participaram da Ferrovia Subterrânea. Ter estudado na prestigiada Westfield Academy e ter sido criado em uma família de empresários moderadamente abastada em Westfield, Indiana, proporcionou ao jovem A. J. Tomlinson incursões nas esferas empresarial e política.
O chamado do evangelho acabou ofuscando a vida serena que se poderia imaginar nessa grande comunidade rural quaker. Tomlinson mudaria de rumo por causa de seus encontros com os Amigos da Santidade. Esse grupo era personificado por seu vizinho de infância, Seth Rees, o chamado “Indiana Earthquaker”, que desprezava a mediocridade proclamando: “Vença ou morra!” Os evangelistas da Santidade deviam muito aos quakers do século XIX quando rejeitaram credos e rituais, desprezaram a hierarquia eclesiástica ou reconheceram a inspiração do Espírito Santo tanto em homens quanto em mulheres, clérigos e leigos. Enquanto isso, a significativa comunidade afro-americana em Westfield fez com que, entre os vizinhos mais próximos dos Tomlinsons, houvesse duas famílias negras. Negros libertos
e africanos escravizados que fugiram pela Ferrovia Subterrânea participavam das reuniões religiosas “para pessoas de cor” realizadas todo verão em Westfield, que atraíam brancos.[1]
J. B. Mitchell, formado pelo Oberlin College, apresentou Tomlinson ao famoso evangelista Charles G. Finney. Fundado em 1833, o Oberlin foi a primeira instituição de ensino superior dos Estados Unidos a realizar a “educação conjunta dos sexos”. Em 1835, a raça também deixou de ser um obstáculo à admissão. Em 1894, Mitchell e Tomlinson fundaram a Book and Tract Company (Empresa de Livros e Folhetos). Esse trabalho de colportagem levou a viagens de curta duração aos Apalaches, mas também ao contato com figuras mais radicais do movimento da Santidade, como Frank Sandford, que publicou o periódico intitulado Tongues of Fire (1894). As estadias na “Holy Ghost and Us Bible School” (Escola Bíblica O Espírito Santo e Nós), de Sandford, em Shiloh, Maine, resultaram em dois batismos nas águas, um deles realizado pelo próprio Sandford, conforme Tomlinson escreveu em seu diário em 1º de outubro de 1901: “Fui batizado pelo Sr. Sandford no rio Androscoggin na ‘igreja do Deus vivo’, para a evangelização do mundo, a reunião de Israel e a nova ordem das coisas no fim da era dos gentios”.[2]
Os Apalaches Chamam
O contato com a comunidade descrita em Atos 2, conforme praticada por Shiloh, e algum conhecimento sobre a Zion City de John Alexander Dowie, em Illinois, forneceriam modelos que a família de A. J. Tomlinson buscava imitar em Culberson, na Carolina do Norte. A mudança da família foi concluída em 1899 e acabou por explicar a interação inesperada com a Associação de Santidade Batizada pelo Fogo (FBHA, sigla em inglês) de B. H. Irwin. Alguns dos mais ferrenhos apoiadores de Irwin fundaram o que viria a ser uma sede nacional emergente em um vilarejo chamado Beniah, no condado de Bradley, Tennessee, a uma curta distância de Cleveland, Tennessee. Tomlinson lançou uma série de oito páginas, intitulada Samson’s Foxes, ao mesmo tempo em que publicava relatos sobre a vida segundo os princípios da fé, à maneira de George Mueller, em jornais como o Pentecostal Herald, o God’s Revivalist e o Evangelical Visitor. Tomlinson projetou seu “Mount Zion Mission Home”, que foi inaugurado com uma escola industrial e um orfanato, para ser um verdadeiro “jardim do Éden”.[3]
Traços da FBHA são visíveis na rejeição de Tomlinson ao “tabaco, ópio, carne de porco, chá e café”. Outra fonte semelhante seria um grupo de evangelistas — Milton McNabb, Joe Tipton, William Hamby e William Martin — que pregaram os notáveis avivamentos de Shearer Schoolhouse no condado de Cherokee, na Carolina do Norte, que tiveram início em 1896. Após o avivamento inicial, Tomlinson afirmaria, em 1913, que aproximadamente 100 pessoas falaram em línguas durante as reuniões posteriores.[4]
Evangelistas que moravam em Beniah ou estavam envolvidos com a cidade levaram a mensagem da FBHA até a casa de Bryant em Camp Creek, na Carolina do Norte. Várias edições da revista Live Coals of Fire (1899–1900), da FBHA, relataram os esforços conjuntos de William M. Martin, R. Frank Porter e Stewart T. Irwin, filho de B. H. Irwin. Essa mesma revista destacou o Ruling Elder (Ancião Regente) W. E. Fuller, um pioneiro afro-americano que fundou 50 igrejas em 10 anos. Fuller chegaria ao cargo de supervisor geral assistente da FBHA quando J. H. King, uma figura imponente na história da IPHC, liderava o grupo.[5]
O pequeno grupo de Bryant testemunhou a interação de diversas espiritualidades, como a amizade com R. G. Spurling. As raízes de Spurling estavam nos batistas do landmarkismo, mas sua identidade se manifestava nas Uniões Cristãs independentes que ele fundou. A primeira iniciativa desse tipo de Spurling foi a efêmera União Cristã em Barney Creek, no condado de Monroe, na Carolina do Norte, em 1886. Os ideais que definiam Spurling foram compilados em seu livreto, The Lost Link, publicado em 1920, mas redigido anos antes. Outro participante desse movimento foi R. Frank Porter, até então ancião regente da FBHA no Tennessee. A organização seminal da Igreja da Santidade em Camp Creek, em 15 de maio de 1902, foi realizada tanto por Spurling quanto por Porter. Spurling foi escolhido pastor, enquanto Porter, logo em seguida, casou-se com Alice Cooke, de Cleveland, Tennessee, e ingressou na Universidade de Chattanooga em Athens (1905).
13 de junho de 1903
O círculo das pessoas ligadas, em vários níveis, à Igreja da Santidade em Camp Creek incluía A. J. Tomlinson, que estava destinado a transformar esse grupo. Uma anotação no diário datada de 13 de junho de 1903 dizia simplesmente: “Fui ordenado ministro do evangelho da Igreja da Santidade em Camp Creek, Carolina do Norte”.[6] Tomlinson havia chegado à casa de Bryant na noite anterior e orou na montanha na manhã seguinte, antes de dar continuidade às discussões entre eles.
Uma versão mais detalhada desse evento pode ser encontrada em um livro significativo publicado por A. J. Tomlinson em 1913, enquanto ele atuava como supervisor geral da Igreja de Deus (Cleveland, TN). Intitulado The Last Great Conflict (O Último Grande Conflito), o livro nos informa que um “estudo mais cuidadoso da ordem do Novo Testamento” resultou na obra sendo “revitalizada e ganhando um novo ímpeto”.[7] Esse momento decisivo de 1903 para Tomlinson se manifesta em um diário agora repleto de detalhes minuciosos sobre a organização em ação. Tomlinson foi imediatamente escolhido pastor da congregação de Camp Creek e, em menos de um ano, já era pastor de três dos quatro grupos locais relacionados. Ele editou, juntamente com M. S. Lemons, um periódico intitulado The Way (O Caminho), que publicou um artigo de R. Frank Porter.
O resgate e a expansão dessa associação pouco estruturada por parte de Tomlinson ajudaram a explicar, em parte, sua mudança, em 1904, dos Apalaches para Cleveland, no Tennessee, e sua estação ferroviária com boas conexões. Em um texto de 1939, Homer A. Tomlinson observou: “… eles se autodenominavam uma Associação, [eles] ainda não se autodenominavam Igreja de Deus”. [8] O primeiro relato de A. J. Tomlinson sobre a conferência de 26 a 27 de janeiro — considerada a Primeira Assembleia Geral da Igreja de Deus (Cleveland, TN) — pode ser encontrado em uma anotação no diário datada de 30 de janeiro de 1906: “Cheguei em casa por volta da meia-noite de ontem, vindo de Camp Creek, Carolina do Norte. Realizamos lá uma assembleia da Igreja; atuei como ancião presidente e redigi a ata dos trabalhos.”[9]
Foi somente em 11 de janeiro de 1907 que o grupo adotou o nome Igreja de Deus. Apesar de seu impulso restauracionista, Tomlinson certamente sabia que o nome Igreja de Deus havia sido usado pela primeira vez pela Igreja de Deus de John Winebrenner, já em 1830. D. S. Warner também havia se identificado com esse “nome bíblico” em Indiana por volta de 1880, e Frank Sandford, por volta de 1897. Escrevendo em Last Great Conflict (O Último Grande Conflito), Tomlinson continua:
Isso, no entanto, não tinha como objetivo excluir o uso de outros nomes bíblicos, tais como: “A Igreja”, “Igrejas em Cristo”, “Igreja **** em Deus, nosso Pai, e no Senhor Jesus Cristo”, etc.[10]
Em 1914, esse mesmo grupo definiria a escolha de A. J. Tomlinson como supervisor geral, ou, como ele mesmo escreveu em seu diário, em 15 de novembro de 1914, “até que Jesus volte ou nos chame”.[11]
Observação: Aproveite a segunda parte deste artigo, “Snapshots de uma jornada espiritual”, na edição de agosto da revista Mensageiro Asa Branca.
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[1] Para uma análise completa dos primeiros anos de vida de A. J. Tomlinson, consulte Roger G. Robins, A. J. Tomlinson: Plainfolk Modernist (Universidade de Oxford, 2004).
[2] A. J. Tomlinson, Diário, vol. 1, 1º de outubro de 1901. Divisão de Manuscritos. Biblioteca do Congresso, Washington, D.C.
[3] A. J. Tomlinson, Diário, vol. 1, 14 de abril de 1902. Divisão de Manuscritos. Biblioteca do Congresso, Washington, D.C.
[4] A. J. Tomlinson, The Last Great Conflict (Cleveland: Walter E. Rogers, 1913), p. 189. Não há publicações contemporâneas da época que confirmem a alegação de que se falava em línguas.
[5] Harold D. Hunter, “O impacto da Associação de Santidade Batizada pelo Fogo da América na Igreja de Deus Emergente (Cleveland, TN): 1898–1906”, Cyberjournal for Pentecostal-Charismatic Research 25 (março de 2018).
[6] A. J. Tomlinson, Diário, vol. 1, 13 de junho de 1903. Divisão de Manuscritos. Biblioteca do Congresso, Washington, D.C.
[7] A. J. Tomlinson, The Last Great Conflict, p. 192.
[8] Homer A. Tomlinson, The Great Vision of The Church of God (Queens Village, NY: publicado pelo autor, 1939), p. 6.
[9] A. J. Tomlinson, Diário, vol. 1, 30 de janeiro de 1906. Divisão de Manuscritos. Biblioteca do Congresso, Washington, D.C.
[10] A. J. Tomlinson, The Last Great Conflict, p. 193.
[11] A. J. Tomlinson, Diário, vol. 3, 15 de novembro de 1914. Divisão de Manuscritos. Biblioteca do Congresso, Washington, D.C.